domingo, 21 de novembro de 2010

Caldo de piaba : trilha sonora entre a tradição e a novidade


Caldo de Piaba: originalidade instrumental que vem do Acre

Quando estive no Acre em abril para cuidar da pré-produção dos Soldados da Borracha, ouvi pela primeira vez o som do Caldo de Piaba, banda acreana instrumental que atualiza com uma levada pulsante o carimbó, o brega e outros ritmos  do  Norte. Senti uma imediata afinidade com o trabalho do grupo, que combina tradição e novidade com um toque autoral de muita originalidade. A música "Sborba" ( nome de um antigo clube de Rio Branco, frequentado pela "velha guarda", e recentemente restaurado pelo Governo do Acre) me remeteu imediatamente ao filme, como um bolero pop em que o antigo rejuvenesce. Foi assim que convidei o grupo para participar da trilha sonora dos Soldados da Borracha e "Sborba" deu charme à abertura do filme. Outras duas composições foram incluídas na trilha: "Lamabada Nova" e "Daimagem". Caldo de Piaba é formado por  Arthur Miúda (baixo), Saulim (guitarra) e Eduardo Di Deus (bateria), vistos aqui  (da esquerda para a direita) em  foto de Talita Oliveira. Conheçam e baixem as músicas do Caldo de Piaba em


http://www.lenhador.com/2010/05/caldo-de-piaba-volume-dois-2010.htmlhttp://www.myspace.com/caldodepiaba

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Diário de filmagem - quarto dia


A equipe e seu Elias (camisa amarela) em frente à casa de Chico Mendes


Depois de entregar o filme ao ETNODOC, volto a lembrar das filmagens neste diário. 
Após a longa entrevista com seu Justino, em Plácido de Castro, partimos para Xapuri, onde uma surpresa nos esperava. Luiz Targino de Oliveira, soldado da borracha com quem tinha feito contato anteriormente, tinha se ausentado da cidade para tratamento de saúde em Brasiléia, na fronteira com a Bolívia. A suspeita era de hanseníase e seu estado era delicado, como constataríamos mais tarde. Isso exigiu que encontrássemos outro personagem que, para nossa sorte, localizamos rapidamente com a ajuda da Dercy Teles, atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores Ruraris de Xapuri, cargo que foi de Chico Mendes. Tucano (apelido de um dos ajudantes do sindicato) nos levou até seu Elias. 
Elias Dias de Souza, 77 anos, nascido nos seringais do Acre, era amigo de Chico Mendes desde o seringal Cachoeira, nos anos 1970. A figura de Chico Mendes, aliás, continua a pairar como uma referência  em Xapuri, cidade conhecida mundialmente depois de seu assassinato, mesmo que pouca coisa tenha mudado por ali desde dezembro de 1988.
Seu Elias foi um achado, pois tem a mesma trajetória de trabalho na borracha (como Luiz Tragino) e  presenciou a decadadência dos seringais, tendo se envolvido em seguida com a fundação do sindicato. Uma de suas frases marcou minha memória e está no filme: "Até hoje tenho honra e se pudesse ainda cortava seringa". 
Com seu Elias tiramos uma foto em frente à casa de Chico Mendes, que permanecia fechada sem explicação, enquanto uma enorme árvore cortada por motossera, por conta de uma construção do vizinho, parecia dizer que a luta continua. Ainda temos muito o que aprender sobre a questão ecológica na Amazônia e parece que um dos principais problemas é fazer com que todos entendam que luta ecológica inclui também o homem, um animal nem sempre racional. Outro ponto é pensar na conservação ecológica ao mesmo tempo que se estrutura uma alternativa econômica para que os remanescentes do trabalho extrativista possam ganhar a vida. Mas isso já é outra história e, quem sabe, outro filme.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Diário de filmagem - terceiro dia

Justino Antônio de Souza e sua família em Plácido de Castro

No terceiro dia de filmagens fomos a Plácido de Castro, cidadezinha a 1h30 de Rio Branco, em uma das fronteiras do Acre com a Bolívia. Nosso personagem na cidade é Justino Antônio de Souza, 82 anos, cearense de Tianguá, que se alistou como soldado da borracha durante a Segunda Guerra Mundial junto com dois irmãos. Seu Justino teve uma trajetória incomum como seringueiro e, além de extrair borracha, ajudou os patrões a amansar índios e se tornou um ótimo caçador. O trabalho de seu Justino também se estendeu à saúde e ele se tornou uma espécie de enfermeiro, percorrendo os rios e matas do Acre. Em um dos momentos mais fortes de seu depoimento contou como amputou a perna de um homem picado por uma cobra. E seu Justino, acreditem, ainda canta!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Diário de filmagem - segundo dia

Volto a este blog depois de vários dias "ilhado" na edição. Montar o filme como média-metragem me preocupava, pois sempre o imaginei como longa, já que a história dos soldados da borracha é literalmente comprida. Com o filme montado, me surpreendi por ter ficado satisfeito, já que com tantos fatores em jogo fica difícil prever o resultado. No momento, estou em compasso de espera para a finalização, que ainda dependem de apoios. Mas vamos ao segundo dia de filmagem!

**************************

Segundo dia

O protagonista do segundo dia de filmagem é o cearense Antônio Tomé Dias, 82 anos. A equipe e eu o pegamos em casa na rua 6 de agosto, em uma estranha "periferia" de Rio Branco, já que fica a cinco minutos do centro da cidade. Para vocês terem uma ideia do cenário, quando o conheci na pesquisa de pré-produção, na casa de um outro soldado da borracha, uma boca de tráfico foi desbarata no beco vizinho, em uma ação que envolveu dezenas de policiais.
Durante as filmagens levamos seu Antônio ao antigo seringal Catuaba, a poucos quilômetros de Rio Branco, onde funciona agora uma reserva administrada pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Evandro Ferreira, meu amigo de infância e agora importante pesquisador do INPA, foi nosso guia nesse local que ainda conserva mata intocada, uma raridade nas proximidades da cidade.
Seu Antônio conserva o ar sério dos homens do sertão e carrega junto com ele cópia da documentação que o tornou soldado da borracha. Explicando melhor: quando foi para o Acre, durante a Segunda Guerra, ele tinha 16 anos e não foi aceito oficialmente como soldado da borracha. Não tem importância: conseguiu um atestado de conduta e, emancipado, embarcou e conseguiu trabalho nos seringais do Acre. Com memória intacta, ele recorda detalhes da viagem, os locais onde cortou seringa e seu exímio talento como caçador. Na mata, parece ter encontrado seu elemento primordial, e todo vestido de verde, só se distingue da vegetação porque mantém o andar ligeiro. Se ainda encontrasse trabalho como seringueiro, certamente viveria na floresta. Conversei com ele em vários locais diferentes desse antigo seringal e seu Antônio mostrou como cortava seringa, o uso do chá de bálsamo e ainda recitou vários versos de cordel, um talento escondido e mais do que bem-vindo, já que aparece logo no início do filme. No final das filmagens, eu ainda descobriria o incentivo para a educação que seu Antônio deu aos filhos.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Na ilha de edição

Há pouco mais de duas semanas iniciei a montagem do filme, junto com Tito Gomes, sócio da Modo Operante, no comando do final cut (programa de edição não linear). São mais de 30 horas de filmagem que devem ser resumidas em 26 minutos, limite estabelecido pelo ETNODOC. A ideia é fazermos esse produto a ser exibido nas TVs públicas e depois montar um longa-metragem. Felizmente temos bom material e histórias não nos faltam. O trabalho é de esforço concentrado e hoje comemoramos o primeiro corte do filme, que inclui trechos bastante animados, com direito a forró.
Tito Gomes no comando do final cut 
As manifestações de interesse tampouco param de chegar. Há alguns dias recebi a mensagem do defensor público Carlos Eduardo Silva, que está à frente da Ação Soldado da Borracha, que pretende rever a situação desses aposentados no Pará. Por outro lado, recebi um email de Gabriel Rodrigues, conterrâneo de Rio Branco, Acre, 15 anos, estudante do Colégio Meta (onde também estudei), pedindo dicas para um documentário que ele e colegas estão fazendo na escola. Enviei alguns palpites e fiquei feliz que a história dos soldados da borracha esteja despertando o interesse de várias gerações.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Diário de filmagem - Primeiro dia




A lua continuava cheia em 28/06 quando saí da cama e vi o sol nascer por volta das seis horas, fato raro na minha existência de notívago. Meu obsessivo plano de filmagens marcava 06h30 como horário de saída de toda a equipe na van branca dirigida por Decleio, nome que ninguém conseguia decorar. O carro pegou primeiro a equipe no hotel, depois a mim na casa do meu pai (ou seria minha casa? várias questões "existenciais" como esta passavam pela minha mente naquele dia). 

 


O primeiro personagem com o qual iríamos conversar era "seu" Walter Nunes de Castro,, que eu conhecera  no forró do Aeroporto Velho, e que escolhi para estar no filme quando disse que "a vida nossa nós não tivemos um mandante que se interessasse por nós e já se sente feliz por quem fala  da gente".  Ele marcou encontro conosco embaixo da caixa d'água da rua Seis de Agosto, perto do quarto onde mora, o que para mim soou como uma necessidade de preservar sua modesta moradia, um quarto alugado perto dali. Não era bem isso e só mais tarde entendi do que se tratava.
Aos 77 anos, aposentado como soldado da borracha, seu Walter é filho de cearense e nasceu no Seringal Iracema, no Acre, onde trabalhou 30 anos como seringueiro. Aí entra uma questão polêmica: decidi incluir no filme seringueiros nascidos no estado porque entendi que a aposentadoria adquirida por eles a partir de 1989 reconheceu o trabalho de todos, migrantes ou nativos, então tomei partido.  Ou seja: depois da aposentadoria, todos que ganham o benefício se denominam soldados da borracha e o filme vai refeletir esse direito adquirido. Não me arrependo: escolhi personagens bastante diferentes entre si, mesmo que a trajetória deles nos seringais tenha vários pontos em comum, e o arco da história vai do Nordeste aos dias atuais, no Acre.


As primeiras imagens que fizemos mostram seu Walter caminhando no calçadão da Gameleira, árvore centenária que continua de pé, às margens do rio Acre, onde hoje uma grandiosa bandeira marca presença. A poderosa câmera Canon EOS 5D, altamente recomendada pelo Pedro, diretor de fotografia, devolveu ao lugar sua dimensão épica e repleta de referências  históricas, reduto do comércio sírio-libanês do início do século XX. Depois fomos bairro vizinho, primeiro porto dos soldados da borracha nordestinos, passando pelo antigo Barracão do Quinze, antigo forró, e ao decadente mercado. Mas a melhor parte - e não programada - foi o encontro de seu Walter com as filhas, em uma pensão atrás do mercado, que ficou parecendo uma aquarela nas lentes do Pedro.
Ah, e ainda tínhamos pela frente a entrevista, fundamental para costurar toda a narrativa. A equipe estava atenta e eu começava a relaxar. Mas, devido ao jogo do Brasil (melhor esquecer isso!), o Parque Capitão Ciríaco, primeira locação programada para fazermos a entrevista, estava fechado. Susanna e eu trocamos ideias sobre um novo local, e Marilda verificava de casa quais eram as alternativas, enquanto Cecília (da casa dela, vizinha ao meu pai) sugeria o Horto. "Sim, o Horto de Rio Branco está lindo, mas talvez lindo demais, e além disso é "feriado de Copa do Mundo", pensava eu. De improviso sugeri irmos à casa da própria Marilda, no bairro da Floresta, mesmo que ela tenha sido a última a saber. O quintal dela, felizmente, guardava todas as fruteiras de que eu me lembrava e o chão tinha um tapete de folhas secas para amparar as lembranças de seu Walter. Na verdade, o cenário não importava muito, mas sim o que ele tinha a dizer. E como ele falou bem!, com direito a filosofia popular e um singelo canto no final da conversa. Foi o grande momento dele no filme, mas não o último, como vocês lerão mais adiante.