terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Diário de filmagem - sexto dia; making of

No sexto dia de filmagem, voltamos a Rio Branco. Fiquei exausto e constatei que isso tinha muito a ver com o calor, que é maior na capital do que em Plácido de Castro, Xapuri ou no seringal Cachoeira. Em alguns momentos no interior é possível até sentir um friozinho típico da floresta. Mesmo cansado e sem conseguir falar muito no making of, o sexto dia foi muito divertido, já que acompanhamos seu Walter da casa dele ao  curioso forró do Centro Cultural Lydia Hammes, no bairro do Aeroporto Velho (vejam  um dos primeiros posts deste blog).
Graças ao apoio da Usina de Arte, com a gravação de Felipe Cavalcanti e Marcelo Zuza, fizemos este making of, editado por Aleksander Tsapov, estoniano que aportou no Rio de Janeiro. Foto de Talita Oliveira.

Uma conversa no forró virou debate informal no filme














Making of:

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Diário de filmagem - quinto dia

No quinto dia de filmagem, ainda em Xapuri, decidi levar seu Elias ao seringal Cachoeira, onde ele trabalhou entre os anos 1960/70 e conheceu Chico Mendes. O seringal Cachoeira abriga hoje uma pousada  de modelo sustentável, com passeios pela mata para conhecer o processo de extração da borracha, a samaúma (uma árvore gigantesca, um dos símbolos amazônicos) e um dos poucos locais onde há pedra nessa região do Acre. A entrada do seringal fica um pouco antes da entrada da estrada para Xapuri, hoje conhecida como a Estrada do Pacífico, desembocando no Peru, e lá ainda se respira o ar mais puro da floresta. A mesma estrada também é conhecida como Estrada da Borracha. Seu trajeto total deve ser inaugurado em 2011, criando expectativa sobre uma nova rota de exportação brasileira. Deixei esse trecho das filmagens para uma nova edição do documentário, apostando que a questão ecológica pode ser mostrada nesse retorno às origens de seu Elias.  Acima, uma foto antiga dessa rota rumo ao mar.

domingo, 21 de novembro de 2010

Caldo de piaba : trilha sonora entre a tradição e a novidade


Caldo de Piaba: originalidade instrumental que vem do Acre

Quando estive no Acre em abril para cuidar da pré-produção dos Soldados da Borracha, ouvi pela primeira vez o som do Caldo de Piaba, banda acreana instrumental que atualiza com uma levada pulsante o carimbó, o brega e outros ritmos  do  Norte. Senti uma imediata afinidade com o trabalho do grupo, que combina tradição e novidade com um toque autoral de muita originalidade. A música "Sborba" ( nome de um antigo clube de Rio Branco, frequentado pela "velha guarda", e recentemente restaurado pelo Governo do Acre) me remeteu imediatamente ao filme, como um bolero pop em que o antigo rejuvenesce. Foi assim que convidei o grupo para participar da trilha sonora dos Soldados da Borracha e "Sborba" deu charme à abertura do filme. Outras duas composições foram incluídas na trilha: "Lamabada Nova" e "Daimagem". Caldo de Piaba é formado por  Arthur Miúda (baixo), Saulim (guitarra) e Eduardo Di Deus (bateria), vistos aqui  (da esquerda para a direita) em  foto de Talita Oliveira. Conheçam e baixem as músicas do Caldo de Piaba em


http://www.lenhador.com/2010/05/caldo-de-piaba-volume-dois-2010.htmlhttp://www.myspace.com/caldodepiaba

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Diário de filmagem - quarto dia


A equipe e seu Elias (camisa amarela) em frente à casa de Chico Mendes


Depois de entregar o filme ao ETNODOC, volto a lembrar das filmagens neste diário. 
Após a longa entrevista com seu Justino, em Plácido de Castro, partimos para Xapuri, onde uma surpresa nos esperava. Luiz Targino de Oliveira, soldado da borracha com quem tinha feito contato anteriormente, tinha se ausentado da cidade para tratamento de saúde em Brasiléia, na fronteira com a Bolívia. A suspeita era de hanseníase e seu estado era delicado, como constataríamos mais tarde. Isso exigiu que encontrássemos outro personagem que, para nossa sorte, localizamos rapidamente com a ajuda da Dercy Teles, atual presidente do Sindicato dos Trabalhadores Ruraris de Xapuri, cargo que foi de Chico Mendes. Tucano (apelido de um dos ajudantes do sindicato) nos levou até seu Elias. 
Elias Dias de Souza, 77 anos, nascido nos seringais do Acre, era amigo de Chico Mendes desde o seringal Cachoeira, nos anos 1970. A figura de Chico Mendes, aliás, continua a pairar como uma referência  em Xapuri, cidade conhecida mundialmente depois de seu assassinato, mesmo que pouca coisa tenha mudado por ali desde dezembro de 1988.
Seu Elias foi um achado, pois tem a mesma trajetória de trabalho na borracha (como Luiz Tragino) e  presenciou a decadadência dos seringais, tendo se envolvido em seguida com a fundação do sindicato. Uma de suas frases marcou minha memória e está no filme: "Até hoje tenho honra e se pudesse ainda cortava seringa". 
Com seu Elias tiramos uma foto em frente à casa de Chico Mendes, que permanecia fechada sem explicação, enquanto uma enorme árvore cortada por motossera, por conta de uma construção do vizinho, parecia dizer que a luta continua. Ainda temos muito o que aprender sobre a questão ecológica na Amazônia e parece que um dos principais problemas é fazer com que todos entendam que luta ecológica inclui também o homem, um animal nem sempre racional. Outro ponto é pensar na conservação ecológica ao mesmo tempo que se estrutura uma alternativa econômica para que os remanescentes do trabalho extrativista possam ganhar a vida. Mas isso já é outra história e, quem sabe, outro filme.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Diário de filmagem - terceiro dia

Justino Antônio de Souza e sua família em Plácido de Castro

No terceiro dia de filmagens fomos a Plácido de Castro, cidadezinha a 1h30 de Rio Branco, em uma das fronteiras do Acre com a Bolívia. Nosso personagem na cidade é Justino Antônio de Souza, 82 anos, cearense de Tianguá, que se alistou como soldado da borracha durante a Segunda Guerra Mundial junto com dois irmãos. Seu Justino teve uma trajetória incomum como seringueiro e, além de extrair borracha, ajudou os patrões a amansar índios e se tornou um ótimo caçador. O trabalho de seu Justino também se estendeu à saúde e ele se tornou uma espécie de enfermeiro, percorrendo os rios e matas do Acre. Em um dos momentos mais fortes de seu depoimento contou como amputou a perna de um homem picado por uma cobra. E seu Justino, acreditem, ainda canta!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Diário de filmagem - segundo dia

Volto a este blog depois de vários dias "ilhado" na edição. Montar o filme como média-metragem me preocupava, pois sempre o imaginei como longa, já que a história dos soldados da borracha é literalmente comprida. Com o filme montado, me surpreendi por ter ficado satisfeito, já que com tantos fatores em jogo fica difícil prever o resultado. No momento, estou em compasso de espera para a finalização, que ainda dependem de apoios. Mas vamos ao segundo dia de filmagem!

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Segundo dia

O protagonista do segundo dia de filmagem é o cearense Antônio Tomé Dias, 82 anos. A equipe e eu o pegamos em casa na rua 6 de agosto, em uma estranha "periferia" de Rio Branco, já que fica a cinco minutos do centro da cidade. Para vocês terem uma ideia do cenário, quando o conheci na pesquisa de pré-produção, na casa de um outro soldado da borracha, uma boca de tráfico foi desbarata no beco vizinho, em uma ação que envolveu dezenas de policiais.
Durante as filmagens levamos seu Antônio ao antigo seringal Catuaba, a poucos quilômetros de Rio Branco, onde funciona agora uma reserva administrada pelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). Evandro Ferreira, meu amigo de infância e agora importante pesquisador do INPA, foi nosso guia nesse local que ainda conserva mata intocada, uma raridade nas proximidades da cidade.
Seu Antônio conserva o ar sério dos homens do sertão e carrega junto com ele cópia da documentação que o tornou soldado da borracha. Explicando melhor: quando foi para o Acre, durante a Segunda Guerra, ele tinha 16 anos e não foi aceito oficialmente como soldado da borracha. Não tem importância: conseguiu um atestado de conduta e, emancipado, embarcou e conseguiu trabalho nos seringais do Acre. Com memória intacta, ele recorda detalhes da viagem, os locais onde cortou seringa e seu exímio talento como caçador. Na mata, parece ter encontrado seu elemento primordial, e todo vestido de verde, só se distingue da vegetação porque mantém o andar ligeiro. Se ainda encontrasse trabalho como seringueiro, certamente viveria na floresta. Conversei com ele em vários locais diferentes desse antigo seringal e seu Antônio mostrou como cortava seringa, o uso do chá de bálsamo e ainda recitou vários versos de cordel, um talento escondido e mais do que bem-vindo, já que aparece logo no início do filme. No final das filmagens, eu ainda descobriria o incentivo para a educação que seu Antônio deu aos filhos.